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Perdão “tóxico”

A gente costuma ouvir muito por aí que precisa perdoar pra superar.
A velha noção cristã de que o perdão libertaria o sujeito da dor.
Alguns chegam ao consultório procurando um jeito de perdoar para poder parar de sofrer, e então o perdão se transforma em uma exigência superegóica esmagadora.

O perdão, se for alcançado em algum momento do processo analítico, é mais “acidental” do que um objetivo. Freud já nos avisou que entender tudo não é perdoar tudo e que uma análise também serve pra nos ajudar a discernir o que serve ou não pra gente. Quem decide se quer perdoar é o analisando. É possível superar sem perdoar. É possível tocar a vida mesmo que às vezes uma lembrança dolorosa apareça e cause raiva. A raiva também tem sua serventia, já dizia Melanie Klein. Ela desempenha importante papel no nosso desenvolvimento.

Pensemos, por exemplo, no caso de Eva Kor, sobrevivente do holocausto que surpreendeu a todos (inclusive outros sobreviventes) ao perdoar e até abraçar um nazista no julgamento em que, entre outras coisas, contou ter visto um colega seu assassinar um bebê esmagando-o contra a lateral de um caminhão. A própria Eva foi vítima, junto com a irmã gêmea, dos experimentos de Mengele. Ela perdoou um nazista que sequer pediu perdão, ele estava tentando justificar seus crimes. Esse perdão me parece mais uma negação do que um perdão de fato. É claro que ela pode, de alguma forma, ter encontrado uma maneira de perdoar genuinamente, mas seria totalmente incoerente esperar que todos os sobreviventes perdoem as atrocidades de que foram vítimas. Isso quer dizer que eles jamais poderiam encontrar um meio de levar a vida depois do trauma?

O perdão como condição pra ser feliz é da turma da positividade tóxica que não respeita os limites do tolerável.
Existem coisas que são realmente imperdoáveis para quem viveu e isso não significa que a vida não seja possível mesmo assim. Perdoar tudo tem mais a ver com Síndrome de Estocolmo do que com superar. O perdão não liberta e ainda pode aprisionar se não for espontâneo. Se o perdão não vier, paciência. Ele pode ficar de fora e isso não quer dizer que seremos consumidos pelo ódio. Uma vida não se resume a um evento apenas.

Escrito por:
Fernanda Soibleman Kilinski

CRP: 07-19871 - Porto Alegre - RS

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